sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SAMAGO [ 1922 / 2010 ]


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OS TRABALHADORES QUE PAGUEM A CRISE

Os empresários estão preocupados com a situação do país (os empresários nunca estão preocupados consigo, mas com o país) e querem "rever as bases da competitividade, nomeadamente os custos da mão-de-obra" e correr menos riscos para "contratar e despedir pessoas". 
Que empresários são estes que querem ter lucro sem correr riscos?
E ser "competitivos" pagando menos e exigindo mais aos seus trabalhadores?
É sabido que Portugal é um dos países da Europa onde se trabalha mais e onde os custos laborais são mais baixos. 
E sucessivos estudos internacionais demonstram que a baixa produtividade das empresas portuguesas resulta sobretudo da má qualidade da gestão e do deficiente planeamento e organização do trabalho. 
Aqui, porém, os nossos empresários assobiam patrioticamente para o lado.

A.P.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

ISTO AINDA É PORTUGAL?

Para fazer avisos à navegação, andam por cá meia dúzia de gajos, entre os quais me incluo, modéstia à parte que, muitos antes do senhor Silva, já torciam o nariz quanto ao rumo traçado. E fizemo-lo de borla, sem assessores nem orçamentos de milhões, pagando da algibeira própria os meios nos quais expressámos receios e opiniões.

O presidente desta cambada tem a obrigação de falar grosso e corrigir os desmandos quando estes acontecem. 
Tem o poder de demitir quem não gere com rigor dinheiros públicos, quem não toma as decisões correctas para o bem comum, quem aparece misturado em estórias mal contadas de dinheiros tidos em parte incerta. 
É para isso que temos um presidente que nos custa mais do que a família real espanhola e uma enormidade de trolhas sentados na casa de putas de S. Bento, aos quais o senhor se deveria ter dirigido atempadamente, exigindo-lhes o desempenho das funções para as quais foram investidos.

Por isso senhor Silva, com todo o respeito que me merece a figura presidencial, vá para o caralho! 
A sua função (era) é, exacta e rigorosamente, a de evitar a situação que agora considera insustentável. 
Essa merda de dar palpites, e avisar para situações perigosas, é para qualquer um, não para o presidente de uma nação.

N.A.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

OPORTUNISTAS...

A única forma de gerar a riqueza que possa pagar o gigantesco calote da nação, é pelo trabalho. 
Não há aumento de impostos ou medidas de contenção que tenha efeito apreciável. 
Em 30 anos de governos nacionais, regionais e locais, liderados por oportunistas políticos, desmantelou-se o tecido produtivo, as pescas e a agricultura. 
O caixa da quadrilha no governo, continua a falar no total esmagamento deste gado sonolento que de canga no cachaço, se vê espoliado do produto do seu trabalho, roubado das contrapartidas devidas pelo Estado em troca dos muitos anos de descontos, impostos e roubos vários, legalizados por decreto-lei.
A corja que há perto de quarenta anos rompe o cu das calças e os estofos das cadeiras públicas, recorrentemente apresenta-se com piedosos discursos sobre o desemprego, e demais flagelos que fustigam aqueles que lhes garantem a boa vidinha a que, por meio da um qualquer quadrilha partidária, acederam. 
Dos ditos, não se vislumbra a mínima ideia de pôr o país a trabalhar. 
De traçar um plano para produzir novas gerações de portugueses, competentes e instruídos, reorganizar um tecido industrial capaz de produzir bens exportáveis, explorar a maior zona de mar da Europa ou, reanimar uma agricultura moderna e viável.
O caixa da quadrilha no comando, continua a falar de aumentar impostos, e retirar bonificações várias, como se fosse por aí que os problemas se resolvessem. 
A canga pesa e o gado abaixa-se.

N.A.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

COITADINHO DESTE, A MENTIRA É GANHA PÃO

Quando o Estorninho chilreia,
mostra, sem margem para dúvida,
a sem vergonha e a baixeza,
da canalha que nos governa!

Ao amigo P... avento,
que o Estorninho,
deve ter ninho no Largo do Rato,
cada vez mais próximo da Legião,
Fascista.

Para o Rato no poder,
a Mentira,
foi promovida a valor supremo,
ganha-pão, modo de vida!

Para o Rato no poder,
a Mentira,
é natural,
é respeitável.

Para o Rato no poder,
a Mentira,
é cotada na bolsa, tem "rating",
é suporte da Máfia que nos governa!

Para o Rato no poder,
a Verdade,
é tango com irmão gémeo,
filhos da mesma rata!

Que Valores maiores,
invoca o Estorninho,
para justificar a Mentira?
O direito dos ratos ao roubo?
O tráfico de favores entre ratos?
O negócio ilícito entre ratos?
O compadrio entre ratos?
O financiamento da rataria à custa do Estado?
A destruição de provas contra os ratos?
A protecção jurídica dos ratos debochados?

Que objectivos,
prossegue o Rato?
A alienação do Bem Comum?
A corrupção da Justiça, da Administração, e dos Serviços públicos?
A ruína do Estado de Direito?


M.

MAIS DOS VIGARISTAS DO PS

"mentirá sempre que estejam em causa valores maiores que a condenação da mentira impõe”.
discurso do Governador Civil de Portalegre - Jaime Estorninho

a propósito:

fala verdade a mentir
o nosso governador Estorninho
como alguém vai descobrir
onde o pássaro tem o ninho?


P.

terça-feira, 1 de junho de 2010

UNS ENGOLEM SAPOS ESTE GAGÁ E APANIGUADOS VÃO ENGOLIR UMA MANADA DE ELEFANTES...

Algum geriatra que tenha a paciência piedosa de explicar a Mário Soares que, nestas eleições, nunca seria candidato eleitoral e que Manuel Alegre era seu adversário, mas nas outras.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A METÁFORA E O TANGO

Não dei a mão ao Governo: dei a mão ao País, disse Pedro Passos Coelho. É uma metáfora sorridente, destinada a justificar o conúbio deste PSD com o PS que por aí penosamente se move. A metáfora é uma forma de encantamento, e a dissimulação do que se não deseja abertamente dizer. Ao pretender salvar a pátria, deprimida e confusa, com um tropo linguístico, Passos coloca Sócrates num lugar errante e subalterno. Por seu turno, este, em Espanha, enche aquele de elogios, utilizando, também, uma metáfora, a do tango, para afirmar, ante uma plateia estupefacta, ter, agora, com quem dançar. Uma cena deprimente.

Sócrates já esvaziara de direcção e de sentido a sua política e a sua presunção. Mentiras, omissões, deambulações absurdas, uma certa pusilanimidade decisória tinham-lhe apagado o estilo e embaciado o retrato. Falou-se em arrogância o que, de facto, era falta de convicção, ausência de livros, ambiguidade ideológica. Está a descer rapidamente a rampa. Não sinto o mais escasso contentamento com dizer isto; pelo contrário.

Pedro Passos Coelho apercebeu-se da debilidade. E, igualmente, da oportunidade surgida das indecisões do adversário e do evidente mal-estar no PS. Até o cauteloso e matreiro Seguro, que sempre preferira expressar-se com frases evasivas e castos comentários, começou a protestar, no objectivo essencial de tomar lugar no proscénio. O PS anda numa deriva interminável e só agora o cândido moço desperta, com sobressalto. António José Seguro não passa, realmente, do rasto das coisas.

Quanto a Passos Coelho, ele sabe que não embarcou numa aventura perigosa. Se Sócrates cair, ele não se estatela porque desempenhou o bondoso papel de preferir a pátria ao partido. Acaso Sócrates sair vencedor destes imbróglios e surja aos olhos dos paisanos como a Fénix renascida, Passos Coelho desfrutará do lugar daquele que procedeu a grandes magnitudes e a decentíssimos comportamentos políticos.

José Sócrates talvez ainda se não tenha apercebido, ou apercebeu- -se e gosta da vaidade lisonjeada, de que está rodeado de sabujos, uma gente degradante, para quem o exercício de pensar é uma embaraçosa maçada. Basta assistir aos preopinantes que o defendem para aquilatarmos da natureza dos seus caracteres e da substância do que dizem. O caso da protelação do apoio a Manuel Alegre é uma pequena vingança de pequenos medíocres, sem aprumo nem grandeza, que chegam a espadeirar-se no insulto rasteiro.

O Governo é um descalabro, e o PS um partido enfermo pelo poder. Há uma corrosão acentuada na sociedade portuguesa. A impostura adquiriu carta de alforria: ninguém é culpado, ninguém é responsabilizado. 
Quem nos acode?


B.B.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

GOVERNOS CIVIS PARA QUÊ?

Quando um primeiro-ministro coloca um imposto ao nível de um refrigerante, torna-se ele próprio um detergente. 
Mas há dislates que são como nódoas: não se limpam. 
Quando se equipara um refrigerante ao leite e ao pão, para defender o indefensável (o aumento da taxa do IVA de 5% para 6%), Sócrates mostrou que já não diferencia a realidade da ficção. 
Para ele avatar é a realidade e a sopa dos pobres a ficção. 
Esta crise necessita de sacrifícios. 
Mas precisa também de políticos crescidos. 
A trapalhada em que se encontra Portugal deve muito ao que Sócrates fez nos últimos anos. 
A desculpa para os seus erros não pode ser um refrigerante com borbulhas. 
Na primeira legislatura Sócrates teve tudo para reformar o Estado e para definir um modelo económico para Portugal. 
Agora é tarde. 
Esta crise é de identidade. 
Porque é uma crise de quem nunca cresceu politicamente e que faz da política um jogo do Ken e da Barbie
Esta crise tem a ver com a reforma do Estado. Aumenta-se o IVA de produtos essenciais, mas não se tem a coragem de acabar com uma figura jurássica do Estado: os Governos Civis. 
Para que servem, para além de serem clubes de empregos políticos? 
Os Governos Civis ocupam-se de funções que qualquer serviço do Estado faria. 
Mas esta é a riqueza oculta de um Estado que diz para poupar e que lança impostos sobre o pão e o leite. 
Os Governos Civis são glutões da riqueza dos contribuintes. 
Sócrates, quando pôde, não promoveu a verdadeira reforma: a do Estado. 
Agora, feito em fanicos, afaga as suas mágoas em refrigerantes com gás.

F.S.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

MAIS DOS MESMOS VIGARISTAS ...

Ricardo Rodrigues, deputado do Partido Socialista questionado pelos jornalistas da Sábado sobre a sua ligação a um gang internacional,   interrompeu a entrevista, que decorria na biblioteca da Assembleia da República, e roubou os dois gravadores digitais aos jornalistas. 
Agora, que a revista colocou a história e o vídeo no seu site, diz que foi vítima de uma violência psicológica insuportável construída sobre premissas falsas.

Vale a pena lembrar, então, o que diz o acórdão do Tribunal da Relação para ver o original entendimento que o deputado Ricardo Rodrigues faz de uma premissa falsa:
Nesta conformidade, necessário será concluir, como na decisão recorrida, que a imputação feita ao assistente pelo artigo incriminado de se encontrar “envolvido com um gang internacional” é obviamente insultuosa e indelicada, mas não deixa de estar justificada em factos, que a prova carreada nos autos permite dar, no essencial, como demonstrados.

terça-feira, 27 de abril de 2010

"AO ESTADO A QUE ISTO CHEGOU"

Creio que Cavaco Silva quando decide ler um discurso na Assembleia da República o faz para o Povo pé rapado, que vota mas não domina os meandros da política, da economia, da vigarice nas empresas públicas e outras em que o Estado tem posição.
Eu não acredito que Cavaco Silva não soubesse desde sempre qual a política de remunerações das empresas públicas e das outras em que o Estado tem participação.
Se não soubesse tal representaria uma falha dos serviços de informações da Presidência da República e mostraria um PR "nas nuvens" para usar o título de uma obra de Aristófanes, contra Sócrates.

O que o Presidente da República deveria dizer aos portugueses era isto:
"Portugueses, o PSD, o PS e o CDS têm seguido desde sempre a política de cada um quando está no Governo dar aos membros dos partidos na Oposição lugares de direcção e outros nas empresas públicas, para alimentar o "pessoal político de cada um dos partidos.
Portugueses, o PSD, o PS e o CDS têm alimentado toda a sua clientela, na Oposição ou no Poder, através de cargos em empresas públicas, institutos públicos, empresas em que o Estado tem participação, sempre com a certeza que na Oposição ou no Poder os nossos amigos e confrades têm sempre tacho.
Portugueses, hoje chegou o tempo em que se tem de mudar isto.
E sobretudo tem de se impedir os milhões de euros de prémios, os milhares de euros que cada um dos administradores não executivos - meros tachos! - recebem para irem a cada reunião, e que é mais de 7000 mil euros num dia!

Caros amigos, deixemos-nos de paninhos quentes. Cavaco Silva sabia disto tudo.
Cavaco Silva vem agora na AR insurgir-se contra isto!? Quem o pode levar a sério?
Por onde andou Cavaco Silva?
Que credibilidade pode ter?
Até o Presidente da República Checa o amesquinhou na semana passada, em Praga!
Os portugueses deixem de ser carneiros e façam o que outros Povos fazem: Revoltem-se e acabem com esta mana!

Cavaco Silva é um dos principais culpados do "estado a que isto chegou" ,para parafrasear o Capitão Salgueiro Maia.
Têm-se limitado a deixar Sócrates afundar mais e mais Portugal. Cavaco Silva tem sido o seu principal aliado.
Porque o "estado a que isto chegou" só chegou porque Cavaco Silva não fez com que Sócrates caísse aquando do caso Licenciatura e toda a trapalhada no site do Governo e na AR.
O PS e Sócrates estão sempre seguros com Cavaco Silva.
Com Cavaco Silva os portugueses e Portugal estão a morrer, aos poucos.
Mais até, o PSD está a desenvolver o plano para apresentar uma moção de censura ao Governo e provocar eleições depois das novas eleições presidenciais.
O PS sabe da estratégia e vai reagir, porque Sócrates e o PS têm muito em jogo.
O PSD faz mal.
Faz mal porque a moção de censura era já hoje!
Em Março ou Abril do próximo ano o PS já se reorganizou.
A não ser que Pedro Passos Coelho tenha a lucidez de fazer cair o Governo já e ir a votos, para o Povo escolher.
Já, já, já!

J.M.M.

sábado, 24 de abril de 2010

FOI HÁ 36 ANOS


Foi por uma fresta que a liberdade entrou. Sem pedir licença, o frémito, insurgente, corrompeu a noite da ditadura. As mil e uma noites do regime amadureceram em soberba, mas caíram pela pureza da poesia nas ruas de Lisboa, numa aurora que tardava - que sempre se demorou - mas que se ia adivinhando na alma de alguns. E Portugal dormia. Era tarde. Era noite. Era uma noite como qualquer outra na longa noite da ditadura. Estávamos cansados. Dormíamos.

A palavra escrita, a palavra cantada emergiu do rádio. Músicas e palavras que ficaram no imaginário de todos, mas que poucos escutaram em directo e muitos menos entenderam o real impacto daquelas senhas. A madrugada foi insuflando o caminho para a alvorada, para o despertar, para a aurora de um novo tempo. Mas o país dormia. Cansado, talvez. Uns resignados. Outros sonhavam. Todos repousavam em si, sobre si, sobre este Portugal amordaçado e cansado, sobre perene tristeza e desesperança. Lá fora estava escuro. E estávamos cansados. Esta seria a última noite assumidamente... noite. Um novo Portugal zurzia por entre o postigo que se estava a abrir na derradeira noite da ímpia obscuridade, do torpor que se preparava para se renegar a si próprio e deixar cair a mais longa ditadura europeia do século XX. Os capitães, os soldados, toldados de dúvidas e medos tentariam levar a cabo a tentativa de derrubar o governo de Marcelo Caetano e colocar o ponto final a quase 50 anos de Estado Novo. Sim, esta era a madrugada. Era esta a hora. Era a derradeira noite. Era tempo do medo recolher as garras.

Portugal dormia.

Era tarde.

Estávamos cansados.

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

(Sophia de Mello Breyner)

24 de Abril de 1974. Às 22.55 é emitida a primeira senha que desencadeará a acção militar que levará ao fim do regime. As palavras soaram na noite pela voz de João Paulo Dinis aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa: “Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74 «E Depois do Adeus».

Era o primeiro sinal para o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armadas.

Quis saber quem sou

O que faço aqui

Quem me abandonou

De quem me esqueci

Perguntei por mim

Quis saber de nós

Mas o mar

Não me traz

Tua voz...

Em silêncio, amor

Em tristeza e fim

Eu te sinto, em flor

Eu te sofro, em mim

Eu te lembro, assim

Partir é morrer

Como amar

É ganhar

E perder.

[...]

(Paulo de Carvalho)

Ninguém suspeita. Ninguém sabe. Ninguém poderia saber. Portugal dorme. Cansado.

Madrugada de 25 de Abril de 1974. Meia-noite e vinte. Lê mos que nos estúdios da Rádio Renascença, na Rua Capelo, ao Chiado, Paulo Coelho, ignora os compromissos assumidos pelos seus colegas do programa Limite, e lê anúncios publicitários. Apesar dos sinais desesperados de Manuel Tomás, que se encontra na cabina técnica acompanhado de Carlos Albino, para sair do ar, o radialista prossegue paulatinamente a sua tarefa. Após 19 segundos de aguda tensão, Tomás dá uma “sapatada” na mão do técnico José Videira, provocando o arranque da bobine com a gravação que continha a célebre senha: a canção Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso rasga a noite.

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade

O povo é quem mais ordena

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo

Em cada rosto, igualdade

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada rosto, igualdade

O povo é quem mais ordena

[...]

(Zeca Afonso)

Irreversível, agora.

Portugal dormia. Nos quartéis, porém, ele estava acordado.

Expectativa.

Medo.

E a história serpenteava pelas ruas. A noite consumada era feita de poesia. A poética marcha. Lá fora, na rua, o país avançava no rodado dos blindados. Os heróis anónimos começaram a rasgar espaço nos livros de história.

Amanheceu em Portugal. O país acordou. Ninguém cansado.

Havia gente e cravos na rua.

Bom dia, liberdade.

Bom dia, sonho.

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam

como estas árvores que gritam

em bebedeiras de azul.

[...]

(António Gedeão)

OS VÍCIOS DO SALAZARISMO

Sonegadas as palavras, retraídos os sonhos, freados os ímpetos. Os arquivos remetem-nos para um tempo habitado por estranhos feitos, espúrios métodos, coexistindo nesse hiato de bizarrias várias, o hiato das liberdades. A imprensa teve as rédea demasiado curtas. Jornalistas e directores que ousavam o caminho da afronta depressa eram “referenciados” e pressionados a calarem-se. Nas redacções abundavam as provas cortadas pelos Serviços de Censura, páginas carimbadas a azul e a vermelho. Alguns cortes eram cirúrgicos, amputando nomes proibidos, extirpando factos. Outros carimbos anunciavam o corte integral do texto, profano para o bem de uma nação que se queria mantida na ignorância, como se o dia-a-dia não fosse prova suficiente para quem quisesse ver. Tudo era alvo da atenção dos censores.

Refazer jornais à última hora era uma das ocupações das redacções. Tentar meter notícias sem chamar a atenção da censura era talento que se ia apurando à secretária. Dizer sem o dizer. Saber ler nas entrelinhas foi um exercício que os leitores foram aprumando em ditadura. Era nessas entrelinhas, naquela vírgula, naquele sinónimo e, sobretudo, no que não era escrito, que as notícias se escreviam.

Eram dias de faz-de-conta. Na política, as eleições eram um artifício. Não eram livres. Todos o sabiam. Mas faziam-se e cumpriam-se no faz-de-conta. Ai de alguém que exprimisse o contrário. Basta olhar para um recenseamento eleitoral de 1966 e ver quem eram os eleitos para votar. Mas a prova já tinha sido feita bem antes, quando o general Humberto Delgado afrontou o Salazar, candidatando-se à Presidência da República, contra o candidato do regime, Américo Tomás. As eleições de 1958, sob forte suspeita de fraude, ditaram-lhe a derrota. Seria de esperar algo de distinto? Mas a afronta não foi esquecida. O general foi assassinado por agentes da PIDE em Villanueva del Fresno, Espanha, em 1965.

O país dos brandos costumes e das virtudes propagadas aos ventos tinha terríveis vícios privados na cúpula do regime. 

N.F.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

ABRIL...

E já passaram 36 anos sobre aquele momento libertador que muitos acreditaram ser o passo para uma outra sociedade.

A distância da data histórica permite que quase todos comemorem, comemorando coisas diferentes. Há quem comemore a liberdade, há quem comemore o sonho que parecia possível, até há quem comemore o contrário dos ideais de Abril.

Também há os que aproveitem a data para aprofundar o processo de revisionismo histórico, para plantarem "heróis" convenientes em cenários onde nunca estiveram.

Muitos de nós caímos na tentação de ficar presos na lembrança de momentos de entusiasmo irrepetível, de solidariedades que pareciam não ter fim, de transformações políticas que pareciam acontecer por milagre.

Recordamos cantores e canções, alguns deles desafinam hoje o que afinavam naquela época e falam desse tempo como quem fala de um momento de passageira loucura.

Também recordamos, algumas vezes com uma frase que envolve referência às progenitoras, aqueles camaradas que pareciam ter a revolução a correr-lhes nas veias, que eram mais revolucionários que a própria ideia de revolução e que afinal, quando os ventos mudaram, eles mudaram ainda mais depressa que o vento.

Nas escolas a maioria dos professores transmitirá aos alunos o que é consensual na comemoração e ocultará o que de mais exaltante aconteceu, porque falar em reforma agrária, nacionalizações, controlo operário, não é politicamente correcto.

Não fujo a nenhuma destas vertentes da comemoração. Também regresso à adolescência, também povoo a memória de canções, de episódios, de frases escritas numa parede.

Apesar dessa incontornável nostalgia, prefiro festejar o Abril que falta cumprir. Prefiro festejar a disponibilidade de continuar a acreditar num futuro onde a liberdade e a igualdade se encontrem, onde a democracia não se esgota em actos eleitorais e se cumpre na vertente política, cultural e económica.

Contrariamente ao que nos pretendem fazer crer, os tempos que vivemos hoje não são consequência da revolução de Abril. São uma consequência do que ficou por cumprir de Abril.

A melhor forma de festejarmos o 25 de Abril, não é a olhar para trás. É com os olhos postos no futuro, empenhados na sua construção, lutando para que se cumpram os seus ideais.

Cantemos a Grândola, não como um hino do passado, mas como um projecto cantado de uma sociedade que ainda não alcançámos.

A azinheira que já não sabia a idade e que nos fazia reféns da sua sombra, aligeirou-se, mudou de aspecto, modernizou-se e está mais liberal, mas continua a cumprir o seu papel.

Embora pareça, ainda não é o povo quem mais ordena, porque como dizia a canção do Sérgio, só há liberdade a sério quando houver /liberdade de mudar e decidir/ quando pertencer ao povo o que o povo produzir.




Abril não é passado. É o futuro de que não nos podemos permitir desistir.

E.L.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

CANTATA DA PAZ

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.



Poema: Sophia de Mello Breyner e Andresen
Música: Rui Paz
Intérprete:Padre Francisco Fanhais


Em 1970, o padre Fanhais, grava e edita o seu disco Canções da Cidade Nova, com arranjos de Thilo Krassman. Algumas das músicas deste disco são de sua autoria e as letras de consagrados poetas, como Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e António Aleixo.
Cantata de Paz, com letra de Sophia e o famoso refrão Vemos, Ouvimos e Lemos, Não Podemos Ignorar, torna-se um dos hinos de resistência ao regime derrubado em Abril de 74.

M.

VAMOS PARTICIPAR NAS COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL


Um grupo de cidadãos de Castelo de Vide convida a população a participar nas comemorações do 25 de Abril.
Venha festejar connosco o Dia da Revolução da Liberdade, da Esperança e da Alegria!

- Concentração junto ao busto de Salgueiro Maia, pelas 13 horas.
- Breves intervenções de convidados dos PALOP's e da Associação 25 de Abril.
- Piquenique, no Parque 25 de Abril.
- Animação, com música, jogos, pintura mural, etc.
- Romagem à campa de Salgueiro Maia, pelas 16 horas.

Traga a merenda, a família e participe connosco!
Venha celebrar de forma digna e festiva o 25 de Abril!

25 de Abril de 2010

Se estiver mau tempo vamos para o salão da Casa do Povo